sábado, fevereiro 18, 2006

Degelo na Groenlândia dobrou em cinco anos
REINALDO JOSÉ LOPES
Enviado especial da Folha de S.Paulo a St. Louis

Uma revolução silenciosa está acontecendo numa das ilhas
mais gélidas e isoladas do planeta, alertou um grupo de
pesquisadores ontem. Eles mediram o quanto as geleiras
da Groenlândia despejaram no oceano entre 2000 e o ano
passado, e viram que o fluxo praticamente dobrou entre
uma data e outra. O fenômeno parece ter relação direta
com um aumento de 3ºC na temperatura da região e pode
significar, no futuro, um aumento muito mais radical do
nível dos oceanos da Terra do que o que se esperava.

O alerta foi lançado por Eric Rignot, do JPL (Laboratório
de Propulsão a Jato) da Nasa, na abertura do 172º
encontro anual da AAAS (Associação Americana para o
Progresso da Ciência), que começou ontem em Saint Louis.
O artigo com as principais conclusões da pesquisa está na
edição de hoje da revista "Science".

Segundo o pesquisador, os dados da Groenlândia jogam
por terra tudo o que as pessoas achavam saber sobre o
impacto das mudanças na geleiras. "Nenhum dos modelos
[usados para prever o aumento do nível dos oceanos]
levava em conta esse aumento no fluxo das geleiras",
afirmou Rignot. "Mas não estamos vendo que esse é
justamente o fator dominante na Groenlândia."

O que isso significa em números reais ainda é difícil de dizer
- Rignot deixa claro que o mar não vai subir 1 m no mundo
todo da noite para o dia. Mas, num prazo de dez anos, as
geleiras apressadinhas poderiam passar a contribuir entre
duas e três vezes mais para o aumento do nível dos oceanos
do que o estimado.

Isso é crucial --e alarmante-- porque, depois da Antártida,
a Groenlândia guarda o maior reservatório de gelo em áreas
terrestres do mundo. Se tudo virasse água, o resultado seria
o brutal aumento de 7 m no nível do mar.

Os dados do estudo vieram do acompanhamento detalhado,
por satélite, de movimento, espessura e velocidade das
geleiras da ilha desde o fim da última década.

As geleiras são verdadeiros rios de água congelada, que
normalmente fluem para o oceano a velocidades baixíssimas.
Muitas vezes isso nem se reflete em perda da massa do rio
de gelo, porque a queda de mais neve compensa o que é
perdido para o mar. Não é, porém, o que tem acontecido na
Groenlândia: no sudoeste e especialmente no sudeste da ilha,
que é possessão dinamarquesa, a chamada descarga das
geleiras aumentou de 90 km3 para 220 km3 na última década.

"Tínhamos uma geleira que praticamente não havia feito nada
nos últimos 60 anos e agora triplicou sua velocidade", conta
Rignot. A espessura dos glaciares também caiu: em alguns
casos, entre 20 m e 30 m.

"A relação entre esse processo e o aumento da temperatura é
indiscutível, mas fica mediada por processos físicos complexos",
diz o pesquisador do JPL. Estima-se, por exemplo, que mais
calor gere mais chuva: o líquido penetraria no leito rochoso da
geleira, "lubrificando-o" e empurrando-a com mais velocidade
para o mar.

O quadro groenlandês é completado pelo de outras geleiras
continentais mundo afora. Situação parecida se vê no Himalaia,
com conseqüências potencialmente catastróficas para o
suprimento de água. E na América do Sul e seus Andes, conta
Gino Casassa, do Centro de Estudos Científicos de Valdívia,
no Chile.

"A única estação de esqui da Bolívia, Chacaltaya, fechou
porque sua geleira se dividiu em três", diz Casassa, colaborador
de Rignot. E a única geleira da Venezuela andina praticamente
não existe mais."

da Folha Online

A estupidez humana é a principal responsável por este
acontecimento que terá consequências nas próximas
décadas previsiveis. Toda a construção que na base da
cegueira do lucro tem sido erigida, junto à costa oceânica
será tragada pelo mar e se acontecer abruptamente
dizimará muitas vidas

1 comentário:

martelo disse...

os grandes responsáveis são os políticos e, já agora, os políticos que nós elegemos e que nos mentem...