terça-feira, fevereiro 28, 2006


Quanto mais "civilizada" a
sociedade, mais escasso é o
contato corporal. Na Alemanha,
estão em moda as chamadas
"festas do abraço", onde os
participantes pagam alguns
euros para trocar afeto.

Tocar e ser tocado são necessários para o bem-estar físico
e emocional do ser humano. Quando somos crianças, nos
comunicamos sobretudo através da linguagem corporal
mas, quando adultos, a linguagem predomina.

Cada vez menos "falamos" através de expressões de
carinho, por meio de gestos, das mãos. Na era da internet
e para contrabalançar as conseqüências da sociedade
virtual, florescem no Primeiro Mundo as "festas da
ternura".

Invenção nova-iorquina

Mãos: instrumentos poderososAs cuddle parties ficaram
famosas há alguns anos em Nova York, introduzidas
por um professor de judô, Reid Mihalko. Logo o
fenômeno se espalhou por várias cidades européias.

Nas "festas do abraço" se oferece o contato para os que
têm "fome de pele". Os participantes começam
conectando-se consigo mesmos, depois com o chão, e,
em seguida, com aqueles ao seu redor. Explorando
dedos, mãos, cabeças.

Nesta "terapia da ternura", alguns se massageiam, outros
se acariciam, enquanto há os que simplesmente
permanecem quietos. O "intercâmbio energético"
acontece em local protegido, o que parece satisfazer a
busca de muitos participantes.

Regras claras preservam o bem-estar

Na Alemanha, os encontros em Berlim, Hamburgo,
Stuttgart ou Colônia se realizam em lugares com pouca
luz, onde os visitantes, vestidos com roupas
confortáveis e recostados em colchonetes, comunicam-se
fisicamente com os demais.


Durante as duas horas do
encontro, as regras são
claras: sexo é tabu, e cada
um decide se quer ser
tocado ou não. O "não" é
tão aceitável quanto o "sim",
e um "quem sabe" deve ser
entendido como um "não".

Cada um decide se após o encontro quer seguir a
experiência na casa do outro participante. Se uma
situação parece estar ficando muito "quente", os
supervisores intervêem, tocando um sino. O riso e o
choro são bem-vindos e até incentivados, uma vez que
são vistos como reações naturais.

Pele necessita de pele

Os organizadores das festas acreditam que o predomínio
da razão faz as pessoas, muitas vezes, esquecerem a
necessidade natural de contato físico com os outros.

A sociedade impõe certos tabus, segundo os quais o tocar
adquire conotações sexuais. O que seria uma falsa
premissa, uam vez que cada vez mais pessoas carecem
dos efeitos benfeitores de um abraço e uma carícia.

Alguns estudos provaram que a estimulação da pele, o
órgão mais extenso do ser humano, reduz o nível de
cortisol, hormônio responsável pelo estresse, melhorando
o sistema ímunológico, normalizando a respiração e
o ritmo cardíaco.

Outras investigações feitas com bebês prematuros
mostraram que os que recebiam 15 minutos de contato
corporal diário cresciam melhor e, mesmo anos depois,
tinham mais resistência à enfermidades do que os que
não recebiam contacto.

Sem álcool nem constrangimento

Nunca é tarde demais para ser mimadoA idade dos
participantes das festas do carinho vai de 20 a 60 anos.
"É esquisito e, ao mesmo tempo, faz sentido que nós
tenhamos que nos encontrar aqui, mas no fundo é uma
mostra da pobreza afetiva de nossa sociedade",
comentou Florian Pittner, estudante de Pedagogia Social
e organizador das festas em Hamburgo, ao semanário
alemão Stern.

Sheraz, um participante de 20 anos, diz que "venho
porque as festas convencionais são entendiantes. As
pessoas têm que se encher de álcool para mostrar seus
sentimentos, logo se arrependendo". Já Annika, 33,
comenta que "em nossa sociedade se fala demais".

Encontrar-se com estranhos para se tocar é moda. A
falta de tempo real para o encontro fortuito ou planejado
com o outro, o medo de relacionar-se, os tabus e o
isolamento têm convertido a ternura grupal, como tantos
outros fenômenos, em um rentável nicho de mercado.

O que satisfaz, certamente, os desejos de uma parte da
população. Já se oferecem até mesmo "maratonas de
abraço" e um evento especial para os que estão sozinhos
no Dia dos Namorados.

da Deutsche Welle

É inacreditável como é possível as pessoas terem de recorrer
a este tipo de realizações pagas para poderem trocar afectos
quando o podem fazer através dos amigos com quem
convivem no dia-a-dia.

2 comentários:

Zecatelhado disse...

Eu gosto mais "à antiga", eh.eh.eh!

Um @bração do
Zecatelhado

augustoM disse...

Recuperar os afectos, é sem dúvida o que a sociedade moderna mais necessita.
Um abraço amigo vela mais do 100 palavras convencionais, nos momentos em que por qualquer razão uma pessoa está mais fragilizada.
Tocar é a maneira mais ancestral de comunicar, e como as palavras nem sempre conseguem dizer o que pensamos, o toque é como levar a outrem um pouco do nosso calor. A carícia continua a ser a forma mais ternulenta de manifestar os sentimentos.
Um abraço. Augusto